Os sistemas de diagnóstico
electrónico
O motor do meu Mondeo andava com um
comportamento estranho. Perdia força, acendia as luzes de aviso
de avaria. Rapidamente pensei nas múltiplas hipóteses para a
raiz do problema; poderiam ser as velas, os cabos de vela,
injectores, válvulas, bomba da gasolina, sonda lambda... Levar
o carro à oficina não foi fácil. Uma vez que a viatura tinha de
"ir à máquina", e que só há uma no Concessionário, bem como
apenas um electricista apto a usá-la, a coisa leva tempo a
marcar. Um bocado agastado com a demora, e de ver o Mondeo
parado na rua, decidi-me a estudar a questão, e a procurar
soluções mais adequadas. E o que descobri é interessante.
De há uns bons anos a esta parte que os
automóveis passaram a utilizar módulos electrónicos, pequenos
computadores dedicados a tarefas específicas. E se os primeiros
pouco mais faziam do que controlar a injecção, os actuais fazem
muito mais do que isso. E o que farão no futuro não deixará de
nos deixar maravilhados.
Actualmente os módulos recebem informação
de uma longa série de sensores, e se todos os sensores são
monitorizados, alguns são até capazes de obedecer a ordens do
módulo, que ao detectar um parâmetro fora das normas pode,
muitas vezes, reprogramar o sistema para corrigir a falha. Todas
as falhas detectadas que não podem ser corrigidas são guardadas
em memória para informação futura da oficina. E se alguma falha
grave for detectada, podem-se acender luzes de aviso no painel de
instrumentos, e mesmo forçar o automóvel a rolar num modo
especial de segurança, que lhe permite rolar até à oficina mais
próxima. Essa oficina deverá ser a de um Concessionário da
marca, dado que neste país muito poucas são as oficinas ditas
generalistas com capacidade para interrogar os módulos por forma
a obterem a informação exacta para a intervenção.
O facto mais importante é o de que todos
os veículos automóveis vendidos nos Estados Unidos a partir de 1
de Janeiro de 1996 (e por arrasto os fabricados na Europa e no
Japão) tiveram de ser produzidos com uma interface / porto de
diagnóstico comum, que reporta uma série igualmente comum de
dados tirados de sensores estandardizados. Esta norma foi
desenvolvida pela SAE (Society of Automotive Engineers), e
designa-se por OBD-II (On-Board Diagnostics - II). As marcas
podem adicionar as funcionalidades que quiserem às da base
OBD-II, mas não podem alterar as que lhe são próprias.
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Este é o aspecto de um conector
OBD-II. Tem de estar localizado no habitáculo, a não
mais de 90 cm do condutor, e ser de fácil acesso, embora
por vezes esteja protegido por uma tampa (mais por
razões de estética).
Começaram então a ser desenvolvidos no mercado sistemas
de diagnóstico que utilizavam este standard para aceder
aos registos dos módulos de qualquer marca. |
Com a vulgarização do uso de computadores
portáteis, estes passaram a ser as plataformas ideais para
aceder aos sistemas dos veículos. Também se começam a ver
soluções baseadas em PDA. A minha opção foi pelo sistema da Auto
Enginuity (cablagens e software), em versão para PC, que é aqui
mostrado ligado ao já então reparado Mondeo.

O programa ScanToll liga-se ao sistema do
carro, e inicia a descarga dos dados presentes na memória do
módulo electrónico (que neste caso é o EEC-IV):

O écran de informação crítica é logo o
primeiro, onde são mostrados todos os códigos de erro ou avaria
que estão memorizados. O exemplo seguinte é de um Fiesta 96, e
mostra algo bastante comum a esse modelo: problemas na gestão do
fluxo de entrada de ar e consequentes problemas na mistura:

Os códigos do fabricante são retirados e
traduzidos em linguagem perceptível. O exemplo seguinte é da
leitura do módulo de uma pickup americana:

De notar que neste caso é apresentada a
luz de aviso de avaria, que estaria em simultâneo acesa no
painel de instrumentos. Pressionando o botão clear
apaga-se esta luz. Também se pode utilizar este botão para
apagar os avisos de altura de revisão. Neste caso e em todos os
outros em que haja possibilidade de reprogramação, deve-se
utilizar o senso comum... quem não sabe, não mexe.
Um grande número de testes podem ser
efectuados, permitindo o sistema uma análise tão profunda quanto
os conhecimentos do utilizador. A próxima imagem apresenta dados
em tempo real de um motor em funcionamento:

A imagem seguinte mostra mais um écran de
dados dos múltiplos possíveis (o exemplo dado é de um veículo
que apresenta um leque de problemas no controlo das emissões
poluentes):

Os vários sistemas de diagnóstico
disponíveis no mercado são divertidos de utilizar para os mais
interessados pela mecânica e electrónica automóveis. Permitem
também ter um conhecimento muito mais certo da condição do
veículo. Não imagino, no lado profissional, a aceitação de uma
retoma, ou um serviço móvel de desempanagem que não recorram a
estas ferramentas. E mesmo nas oficinas centrais, a existência
destas ferramentas pode desencalhar muitos processos de
reparação, atenuando aquilo que numa análise de métodos
facilmente se identifica como um "gargalo de garrafa".
Compreende-se que uma marca tente manter
os seus sistemas envoltos em alguma opacidade, por razões de
controlo e de exploração económica. No entanto os tempos estão
em mudança, e há que aceitar as realidades, olhando estes
sistemas portáteis e relativamente baratos como oportunidades, e
não como ameaças.
De notar que a partir de 2008 será
obrigatória a instalação de um novo tipo de conector nos
veículos então produzidos, uma evolução do OBD-II designada por
CAN (Controller Area Network). Fabricantes como a Ford ou a
Mercedes começaram a introduzir os conectores de norma CAN em
2004. O modo mais expedito de verificar se uma cablagem é
compatível com CAN é contar os terminais metálicos desta. 8
terminais usualmente significam CAN, 6 terminais querem dizer
OBD-II. Dada a forma física e a natureza da norma, uma cablagem
CAN continua a aceder a toda a informação dos sistemas OBD-II.