Memórias da Ford: Os Vidros
Coloridos
São poucos os carros recentes que se vêem a circular com vidros
“à antiga”, transparentes como copos d’água. Os vidros coloridos
(também referidos como tintados ou fumados) dão alguma protecção
solar, ajudam a diminuir os reflexos e encandeamento, e
complementam a estética exterior do veículo.
Como todos os componentes de um automóvel, têm a sua história.
Há uns vinte anos atrás eram aves raras, usualmente adaptações
pós-fábrica, e a cor não era própria do vidro, mas resultado da
aplicação de películas várias. Essa indústria de películas
coloridas aplicáveis a vidros sobrevive hoje essencialmente em
marquises e estufas, e está praticamente extinta no ramo
automóvel europeu.
Algumas marcas começaram então a comercializá-los como opções de
fábrica, e pouco a pouco foram-se vulgarizando. Os gestores de
produto começaram a incluí-los, com grande alarde, em séries
especiais. Eram daquelas opções pelintras que se usavam nos
países pobres como Portugal em vez das opções sérias dos ricos e
civilizados. O carro português tinha vidros coloridos e vidros
eléctricos. O alemão vidros “brancos”, janelas manuais, ar
condicionado e ABS.
Por volta de 1995 estava a começar a chegar ao fim de vida um
derivativo muito particular do Ford Escort, o Escort van. Era um
veículo comercial feio e de ar pesado, com uma frente de Escort,
mas uma caixa de carga alargada para trás. A sua produção até
teria parado mais cedo, não fora a estranha popularidade que
continuava a gozar em Inglaterra. Em Portugal as vendas caíam a
pique, muito por culpa da nova Opel Astra van, que também não
ganhava concursos de beleza, mas pelo menos era mais parecida
com a versão carrinha / station que eles tinham.
O problema é que haviam quotas a cumprir, e veículos a vender,
que centralmente não nos deixavam cravar uma estaca no arcaico
peito do modelo. Tínhamos então de nos virar do avesso para
tornar o carro mais apelativo. Colocámos como equipamento de
série a direcção assistida, e lá olhámos para a possibilidade de
lhe instalar vidros coloridos – o que à data, na fábrica e para
a versão comercial, não faziam de todo.
Para os das portas de trás não havia nada a fazer, que nunca tal
opção tinha sido desenvolvida, mas o pára-brisas e as janelas
eram iguais às dos carros de passageiros Escort, pelo que a
questão era mais simples… uma vez que se convencesse a fábrica a
libertar (como internamente se diz) a opção para a van. Lá se
conseguiu (com umas torcidelas de braços acompanhadas da usual
banda sonora de gemidos e pragas com que os burocratas internos
nos brindam nessas alturas).
Agora havia que preçar a coisa no preço final do derivativo, e
para isso precisávamos de saber o custo variável da opção. E
faço aqui um aparte e singelo aviso. Aquilo a que se chamava
custo variável dentro da Ford não tinha nada a ver com a
definição que do mesmo se aprende em qualquer disciplina de
introdução à economia. São termos internos que parecem ter sido
criadas para confundir e baralhar o caloiro nestas andanças, e
que ainda se tornavam piores quando os “mais antigos”, que nunca
tinham estudado economia, não entendiam as nossas iniciais
dúvidas.
Abreviando a coisa, aquilo a que se chamava por lá de
variable cost não era mais do que o custo total à saída da
fábrica, ao qual teria de se acrescentar uma margem de lucro
aceitável para a companhia, e depois a margem do concessionário
e os impostos.
O usual nas marcas, por essa altura, era cobrarem as opções de
vidros coloridos nos carros pequenos pela volta dos 225 Euros.
Esperávamos nós conseguir dar a volta às contas para evitar tal
aumento numa viatura que já de si era difícil de vender. Mas
para isso tínhamos de ver qual era exactamente o tal custo
variável.
Ponho-me ao telefone para Inglaterra e lá localizo o colega que
na fábrica tratava dessas coisas.
- “Dá-me aí, por favor, o custo variável dos vidros coloridos
para o Escort.”
- “Espera aí um instante… ah, está aqui! É um crédito de 25
dólares.”
- “…. Desculpa, repete lá isso, pareceu-me que disseste
crédito.”
- “Sim, sim, é um crédito de 25 dólares.”
- “…. Ummm… podes confirmar-me isso por e-mail?”
- “Vai já!”
E veio. Confirmado por escrito, era um crédito de 25 dólares. O
carro saía-nos mais barato. Alegres e contentes ficámos, mas eu
roído de curiosidade não descansei enquanto não percebi o porquê
da coisa, disfarçadamente, não fosse alguém mudar de ideias!
E durante uma acção de formação qualquer em Inglaterra dei por
mim lado a lado com o homem que tinha as respostas. E durante um
almoço lá lancei o anzol.
- “Olha lá, há uns tempos disseram-me que os vidros fumados eram
mais baratos que os lisos, é verdade?”
- “É, são um bocado mais baratos.”
- “Explica-me lá essa.”
- “Tive uma vez uma conversa com o fornecedor, e é bastante
simples”, disse-me ele entre duas garfadas, “Os corantes que se
adicionam são baratos, e o controlo de qualidade fica muito
simplificado. Pequenas imperfeições que são inaceitáveis nos
lisos ficam invisíveis nos fumados.”
Passei o resto do dia a rir-me como um perdido.
Ainda há sítios no mundo onde, em algumas gamas, os vidros
coloridos são cobrados à parte como opção, o que ainda me
consegue trazer um sorriso ao rosto. Até que me ponho a pensar
que raio de coisas ando eu para aí a pagar alegremente enquanto
alguém, algures, se ri.
Mas a Ford Lusitana não se aproveitou disso para aumentar o
preço da Escort van. Trocámos os vidros normais pelos coloridos,
e por amor ao cliente, mantivemos os preços!