As conversões de motores a
gasolina para GPL
Relativamente poucos automóveis circulam
em Portugal movidos a GPL. O GPL é uma alternativa económica à
gasolina, e é bastante menos poluente do que o diesel, ficando
de fora das contas da Comunidade Europeia quanto à falada
introdução de um imposto especial ecológico sobre o gasóleo.
Tenho visto muitas opiniões sobre os prós
e os contra das viaturas movidas a GPL, mas quase nada técnico
sobre isso. Esta entrada no blog tem por objectivo acabar com os
mitos e quantificar as realidades. Como cobaias para as contas,
tomo seis modelos comercializados pela Renault. O mesmo
exercício pode ser facilmente extrapolado para quaisquer outros
modelos. Os dados referentes ao imposto automóvel estão
disponíveis online no site do
Ministério das Finanças, os preços e características das
viaturas Renault estão no
site desta, e os preços dos combustíveis foram tirados do da
GALP. Passemos então à análise.
Aspectos base da conversão em GPL (Gás
de Petróleo Liquefeito)
Qualquer motor a gasolina pode ser
convertido para a utilização de GPL. Os componentes base
adicionados pela conversão para GPL são:
- o reservatório com o respectivo
conjuntos de válvulas
- o tubo de alimentação
- a electroválvula de corte do GPL-CNG
4
- o tubo entre a electroválvula e o
redutor-vaporizador
O veículo mantém toda a capacidade de
utilização a gasolina, podendo seleccionar-se o combustível
através de um comutador, montado no painel de instrumentos. Esta
selecção pode fazer-se em andamento.
As transformações mais antigas, e ainda
utilizadas, implicavam a substituição do módulo de controlo de
origem por um supostamente adaptado ao veículo e ao GPL. Dada a
complexidade actual dos módulos de controlo, e das extensas
funções por eles geridas, esta solução não deve ser adoptada nos
em veículos posteriores a 1996, regra geral.
A solução correcta é a que utiliza um
sistema que se limita a interceptar e inibir os sinais que o
módulo envia aos injectores, e apenas quando o GPL é
seleccionado.
O reservatório do GPL tem tamanho, forma e
colocação que depende do veículo e do espaço que se esteja
disposto a sacrificar. A sua capacidade usual é de 60 litros.
Uma das soluções adoptadas, em veículos em que a 5ª roda é igual
às outras, é a de opção por um pneu sobresselente de emergência,
utilizando o espaço restante para colocação do depósito de GPL.
Proibição de estacionamento em garagens
fechadas
A toxicidade do GPL não é
significativamente maior do que a do gás natural ou do que a das
emissões ou vapores da gasolina.
Tal como o dióxido de carbono, o GPL é na
origem inodoro. Por segurança é-lhe adicionada uma substância
aromática para permitir a detecção de fugas.
Ao contrário do gás natural ou do dióxido
de carbono, o GPL é mais pesado do que o ar, pelo que na
ausência de ventilação forçada se acumula ao nível do solo. Como
a grande maioria dos estacionamentos subterrâneos ou fechados em
Portugal têm ventilação apenas ao nível do tecto, as viaturas
equipadas com GPL não podem, por lei, usar os mesmos. Numa
garagem com ventilação forçada ao nível do solo não há razão
técnica que impeça o parqueamento de viaturas a GPL; no entanto
a lei não contempla estas excepções.
Preocupações ambientais
Os últimos estudos indicam que as emissões
poluentes dos veículos convertidos para GPL são superiores às
dos veículos equivalentes a gasolina, e inferiores às dos
veículos equivalentes a diesel. Em termos ambientais o GPL é uma
boa alternativa ao gásoleo, mas uma má alternativa à gasolina.
A causa está no desenvolvimento e
optimização dos motores para o uso de gasolina; por muito boa
que seja a conversão para GPL o motor é menos eficiente na
utilização do gás.
Alteração nas performances
São de esperar perdas de potência máxima
de até 5% quando o motor usa o GPL. Na utilização de gasolina,
teoricamente, o motor mantém as suas características iniciais.
As curvas de potência do motor nas
utilizações a GPL e a gasolina são praticamente iguais a baixos
regimes, e diferem até aos referidos 5% nos altos regimes. São
assim de esperar velocidades de ponta menores com o GPL, mas
sensações de resposta muito similares.
As curvas de binário são muito similares.
Alterações de consumos
Os consumos de GPL são 10 a 15% mais
elevados do que os de gasolina em volume. Quando rectificamos o
pior valor (15% mais em volume) com as actuais diferenças de
preços dos combustíveis, temos uma poupança em moeda de cerca de
40%.
Alterações na durabilidade e manutenção
De acordo com a literatura dos fabricantes
dos kits de transformação para GPL, os intervalos de manutenção
e a durabilidade dos componentes originais não são alterados.
Das peças instaladas na conversão apenas o redutor-vaporizador
carece de uma manutenção mais cuidada, devido à acumulação de
impurezas que vêm no gás.
No entanto as cargas térmicas sofridas por
pistões e cilindros aquando da utilização do GPL são superiores
às da utilização da gasolina. A médio e longo prazo devemos
contar com um desgaste ligeiramente maior das peças afectadas.
Impacto nas garantias
A manutenção ou não da garantia é uma
decisão local do fabricante. Os novos motores a gasolina das
principais marcas têm sido internamente referenciados como
compatíveis com a conversão para GPL. O acréscimo dos custos de
garantia com unidades a GPL vendidas como produtos das marcas –
conversões certificadas – têm sido informalmente referenciado
como mínimo.
Capacidade instalada dos
transformadores
A capacidade instalada actual dos
transformadores é bastante baixa. Para os 2 principais,
representantes de marcas certificadas, a capacidade é de cerca
de 600 unidades por ano, e a capacidade máxima de cerca de 800.
O limitador é a mão-de-obra.
A conversão, no entanto, é relativamente
simples. Uma equipa de 2 homens poderá fazer 2 a 3 conversões
por dia.
Vantagens fiscais e custos de
transformação
Os veículos a GPL têm, no corrente ano,
uma redução de 40% no IA (Imposto automóvel). Os custos de uma
transformação são em média de 1.800 €, IVA incluído, e pouco
variam de veículo para veículo. Temos assim o seguinte impacto
ajustado, por modelo:
|
Viatura |
Preço |
Cilindrada |
IA |
Redução IA GPL |
Conversão |
Alteração preço |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Twingo 1.2 16V |
12,750 |
1,149 |
2,237 |
895 |
1,800 |
905 |
|
Clio 1.2 16V 75cv |
13,860 |
1,149 |
2,237 |
895 |
1,800 |
905 |
|
Clio 1.4 16V 100cv |
18,040 |
1,390 |
4,168 |
1,667 |
1,800 |
133 |
|
Megane II 1.4 16V 98cv |
18,860 |
1,390 |
4,168 |
1,667 |
1,800 |
133 |
|
Megane II 1.6 16V 115cv |
25,140 |
1,598 |
6,361 |
2,544 |
1,800 |
(744) |
|
Laguna 1.6 16V 115cv |
27,180 |
1,598 |
6,361 |
2,544 |
1,800 |
(744) |
Apenas no Laguna há lugar a uma diminuição
nos preços de venda ao público, ficando os Clio e Twingo com os
preços incrementados em 905 €. Há agora que tomar em
consideração a diferença de custos associada aos combustíveis.
Teríamos assim, para uma utilização de 15.000 Km / ano, os
seguintes valores:
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|
Consumo |
C GPL |
|
15.000 Km Gas |
15.000 Km GPL |
Poupança |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Twingo 1.2 16V |
5.80 |
6.7 |
|
982 |
580 |
402 |
|
Clio 1.2 16V 75cv |
5.90 |
6.8 |
|
999
|
590
|
409 |
|
Clio 1.4 16V 100cv |
6.70 |
7.7 |
|
1,135 |
670
|
464 |
|
Megane II 1.4 16V 98cv |
6.80 |
7.8 |
|
1,152 |
680 |
471 |
|
Megane II 1.6 16V 115cv |
6.80 |
7.8 |
|
1,152 |
680 |
471 |
|
Laguna 1.6 16V 115cv |
7.20 |
8.3 |
|
1,219 |
720 |
499 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Preço p/Litro |
1.129 |
0.580 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
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|
|
GSC 95 |
GPL |
|
|
|
|
Podem-se derivar facilmente as poupanças
relativas a maiores quilometragens anuais. Um eventual comprador
de um Clio ou Twingo movido a GPL poderá esperar recuperar o
investimento extra inicial em pouco mais de 2 anos, nos carros
de maior cilindrada, a poupança é óbvia e imediata.
Agora compare-se esta situação com a dos
carros a diesel. A minha afirmação imediata é de que o impacto
na carteira do cliente cada vez que vai à bomba favorece o
utilizador de GPL. Os consumos em volume (Litros) são superiores
no GPL, mas o custo por Litro de GPL é substancialmente mais
baixo do que o do gasóleo. Agora comparem-se os preços de venda
ao público das viaturas a gasolina com as movidas a diesel de
potência semelhante. Um Clio diesel de 100 CV custa 21.290
€, um Clio gasolina de 100 CV custa 18.440 €.
É fácil chegar à conclusão que as viaturas
movidas a GPL estão subvalorizadas e subaproveitadas em
Portugal. A oportunidade para as marcas é óbvia, desde que o
projecto seja bem feito!
E para rematar esta questão vou aplicar
uma situação teórica extrema, e usar um daqueles carros que são
mais para divertir do que para racionalizar: tomemos um Opel
Astra 2.0 Turbo Cosmo.
Temos um veículo de 1998 cc de cilindrada
e 170 CV de potência. Paga de IA 10.578 €, para um preço final
de 29.090 €. A conversão para GPL implicava uma diminuição do IA
em 4.231 € !
Quer dizer que o mesmo modelo poderia ser
vendido por 25.000 €, com cerca de 162 CV, e tendo custos de
utilização similares aos de uma versão diesel.
Por aqui se vê que as possibilidades de
"brincar" com os modelos são interessantes. Um bom gestor de
produto poderia fazer uma série especial de grande aceitação.
Mas esse é o trabalho deles e não meu, a menos que me paguem!
Memórias da Ford: O
Papaléguas
Tudo o que eu queria era que o Benfica
fosse eliminado da Liga dos Campeões Europeus. Confesso-me
Benfiquista, quando o intelecto está em baixa e ligo a essas
coisas do futebol. E como se de uma história de um filme
americano se tratasse, que o Benfica não me levasse a mal, que
não era nada pessoal, era apenas negócio.
E tudo por causa de um carro de
pré-produção que estava no Estádio da Luz, mesmo junto ao
relvado. A Ford patrocinava internacionalmente a Liga dos
Campeões Europeus, e tínhamos colocado no Estádio da Luz a nova
estrela, em vésperas de lançamento – um Focus vermelho de 3
portas.
E eu precisava desesperadamente desse
carro, para o desmontar e transformar. Muito chateei a Rute com
tentativas mais ou menos manhosas para retirar o carro, mas não
havia nada a fazer. Portugal só tinha tido direito a dois
exemplares de pré-produção, ou, na nossa gíria própria, 4Ps.
Os 4P são unidades que a fábrica constrói
para teste da cadeia produtiva. São muitas vezes inacabados, com
alguns defeitos mais ou menos visíveis. Cada país é levado a
encomendar uns números deles, de acordo com a dimensão do seu
mercado e com o número de 4P que vão ser produzidos. Podem ser
usadas em acções promocionais, onde os clientes não tenham
oportunidade de os ver demasiado de perto, e nunca poderão ser
vendidos. O seu destino final é o retorno à fábrica. Alguns
servem para aprendizagem do pessoal, outros acabam em testes
contra a parede.
O meu objectivo era tornar difícil a vida
à concorrência, e lançar o derivativo “comercial” em simultâneo
com o para passageiros. Aproveitando toda a experiência obtida
com o seu antecessor, o Escort Boss, e tendo nas mãos um produto
novo e muito apetecível que era o Focus, poderíamos fazer
sucesso nesse singular segmento dos “desportivos diesel de dois
lugares”. Na Ford Europa ficaram um pouco cépticos quando lhes
disse que o objectivo era o de vendermos 1500 unidades por ano,
talvez mais. Agora havia que prová-lo.
Toda a preparação possível tinha sido
feita. Tínhamos lutado pela introdução (release) de uma opção
especial de fábrica que consistia na não montagem do banco
traseiro e respectivos cintos de segurança, e colocar o
respectivo crédito nas nossas contas. Tínhamos lutado com os
gestores de produto centrais para podermos ter este veículo que
venderíamos como veículo comercial, mas que não lhes estragaria
a imagem do carro porque nem iria parecer um comercial, nem
teria a utilização típica de um. E depois ainda tivemos de os
convencer de que deveriam ser libertas para este suposto
comercial opções de estilo tais como jantes em liga leve, tectos
de abrir e bons rádios. E muito teria eu dado para que essas
verdadeiras campanhas contra a inércia e incredulidade da Ford
Europa se tivessem resolvido tão facilmente quanto a escrita do
parágrafo acima!
Agora tudo o que eu precisava era de um
Focus 3 portas nas mãos, que servisse de protótipo para o
desenvolvimento, instalação e teste do kit de transformação
local que o tornaria, aos olhos da Direcção Geral de Viação, num
veículo comercial ligeiro. E só havia um em Portugal. E estava
no Estádio da Luz, de onde só sairia quando a televisão não
fosse mais transmitir os jogos do Benfica para a Liga dos
Campeões. E o Benfica, nesse ano, para delírio dos adeptos e
consternação minha, parecia querer fazer uma temporada europeia
digna de nota.
Finalmente o carro ficou disponível, e eu
caí em cima dele como um lobo. À tardinha vieram estacioná-lo à
garagem do Hotel Tivoli, onde muitas das nossas viaturas
dormiam, por um velho acordo, e eu marquei todas as viagens e
reuniões necessárias para o dia seguinte.
Pelas matinas estacionei o meu carro ao
lado do tão desejado Focus. Penduradas por cordas, à frente e
atrás, estavam duas chapas vermelhas de um dos nossos
Concessionários, que permitiam ao carro a circulação apesar de
não possuir matrícula. Dentro do porta luvas o termo de
responsabilidade e autorização de circulação da Ford. Por seguro
uma cópia do fax que ontem tinha enviado à nossa agência, a
informá-los de que ia andar em circulação a viatura com número
de motor tal.
Acomodei-me, recordando-me que estava numa
unidade de pré-produção, não propriamente perigosa para
circular, mas também longe de ser representativa do produto
final. Tive a sensatez de levar comigo alguns fusíveis, que bem
falta me fizeram – o dos piscas nunca tinha sido instalado, pelo
que os mesmos estavam mortos. Em estrada rapidamente se percebeu
a diferença… tremidelas do motor, ruídos parasitas, tremidelas
nos travões quando solicitados. Avisos para ter cuidado e não
entrar em confianças.
A primeira paragem foi em Alverca, na
incontornável STIFA, onde já se procediam a bastantes
transformações de viaturas Ford, e aonde estes novos Focus van
seriam finalizados e enviados como produto acabado para as
Concessões.
O Engº Mota e eu ficámos cá fora a
assistir à desmontagem do banco traseiro e dos cintos de trás,
conversando placidamente e caíndo frequentemente na tentação de
dar “conselhos úteis” aos homens que procediam ao trabalho. Não
me teria importado de ir eu para dentro do carro desmontar o
material – calças de ganga e sweatshirts foram sempre a minha
vestimenta de trabalho nestas fases –, mas há que ser
inteligente e perceber que esse trabalho pode ser feito melhor e
mais rapidamente por quem realmente sabe e faz disso a sua
profissão.
Nem trinta minutos se passaram antes que
reiniciasse viagem, agora dentro de um carro estranhamente vazio
e muito mais barulhento. O piso de metal posto a descoberto
parecia um queijo suíço, com múltiplos buracos deixados à vista
pela saída dos parafusos de fixação do banco, e os grandes
buracões dos pontos de ancoragem dos cintos de segurança.
Os parafusos dos pontos de ancoragem dos
cintos de segurança ao piso do carro são da grossura de um
polegar, a chapa de aço onde se enroscam em estrias largas é um
dos componentes estruturais mais fortes de toda a viatura. E
assim tem de ser, por razões que por vezes mesmo pessoas
supostamente esclarecidas tendem a ignorar…
Num embate típico de trânsito de cidade,
as forças de aceleração facilmente atingem o primeiro dos
valores chave no desenho de sistemas de segurança para
automóveis: 20 G. 20 G significa 20 vezes a força da gravidade,
e equivale a que o humano “normalizado” de 75 Kg que entra nas
contas das fábricas passa, naquele instante, a pesar 1500 Kg, e
é com essa força de uma tonelada e meia que o parafuso tem de
aguentar. Uma pancada mais séria, representativa daqueles
choques contra o muro que estamos habituados a ver na televisão,
pode significar 60 G instantâneos… 4.500 Kg, o peso aproximado
de um elefante, a fazerem força sobre aquele singelo parafuso.
Por aqui se podem inferir as dimensões das forças dos acidentes
verdadeiramente graves. Já vi parafusos destes quebrados como se
de palitos se tratassem.
A viagem pela A1 até Vila da Feira, onde
se encontrava a sede da empresa que nos iria desenvolver e
produzir os kits de transformação, chamada Ritual, foi divertida
como sempre o são estas viagens com carros novos que ainda não
estão a ser comercializados. Muita gente olha ao passar por nós,
alguns ultrapassam, notam, e deixam-se depois ultrapassar para
se colocarem em fila a apreciar a ave rara. Nas bombas de
gasolina as pessoas vêem ter connosco e fazem-nos perguntas.
Outras passam com os amigos: “olha, é um Ford!”, “não é nada!”,
“é, é, olha o emblema!”. A Brigada de Trânsito por vezes manda
parar, pedem a carta de condução para disfarçar, mas o que
querem mesmo é ver o carro. As senhoras, infelizmente, não
reparam muito, e ainda menos no condutor mal vestido que tem
mais aspecto de motorista de oficina do que de executivo.
Na próxima
actualização deste blog:
Como se
fazem (e como se deviam fazer) as comparações de produto no
ramo automóvel
Memórias
da Ford: Boys will be boys